Publicado em 1847 como único romance de Emily Brontë, wuthering heights já foi adaptado para o cinema em 1939, 1970, 1992 e 2011, além de versões para a televisão em múltiplos países, e uma nova versão com Margot Robbie e Jacob Elordi chegou aos cinemas em 2026. Nenhum outro romance da literatura inglesa do século XIX acumulou tantas interpretações audiovisuais com perfis tão diferentes entre si, o que por si só revela algo sobre a natureza do material de origem: é uma história que cada geração precisa reinterpretar para entender.
Por que essa história em particular
A resposta mais honesta está na estrutura interna do romance. Wuthering Heights não é uma história de amor, embora seja frequentemente vendida como tal. É uma história sobre obsessão, ressentimento de classe e vingança que se estende por gerações, protagonizada por dois personagens cuja relação é ao mesmo tempo profundamente atraente e completamente destrutiva.
Heathcliff é um órfão trazido de Liverpool para as ermas terras de Yorkshire por um fazendeiro bondoso e criado junto a Catherine Earnshaw, filha da família. Os dois desenvolvem uma conexão que o romance descreve como algo além da amizade e além do amor convencional, um vínculo de identidade que Catherine articula numa das frases mais famosas da literatura vitoriana: “Eu sou Heathcliff.” Quando Catherine se casa com o respeitável Edgar Linton por razões sociais e econômicas, Heathcliff desaparece por três anos e retorna rico e determinado a destruir todos que o humilharam.
O que torna essa história difícil de adaptar e irresistível de tentar é a recusa de Brontë em fazer julgamentos morais simples. Heathcliff é o protagonista com quem o leitor passa mais tempo, e é também quem perpetra as maldades mais graves do enredo.
A versão de 1992 com Ralph Fiennes e Juliette Binoche
A adaptação de Peter Kosminsky é a que melhor preserva a atmosfera sombria e a ambiguidade moral que definem o romance. Ralph Fiennes, num papel que ele mesmo descreveu como transformador, construiu um Heathcliff que carrega tanto a sedução quanto a crueldade do personagem sem resolver a tensão entre os dois. Juliette Binoche traz a Catherine com uma complexidade que vai além do papel de amante frustrada: é uma mulher que faz escolhas conscientes e que paga o preço delas.
A fotografia do filme usa os moors de Yorkshire como elemento narrativo ativo. As paisagens abertas, ventos constantes e céus pesados criam uma atmosfera de isolamento que amplia o peso emocional dos confrontos entre os personagens.
A versão de Zack Snyder em relação às anteriores
Cada adaptação de Wuthering Heights diz algo sobre o período em que foi produzida. A versão de 1939 com Laurence Olivier e Merle Oberon romanticizou a história ao ponto de eliminar a segunda geração do romance. A versão de 2011 de Andrea Arnold, com um Heathcliff negro num cenário que ressalta explicitamente a dimensão racial do preconceito, foi a mais politicamente honesta com o texto de Brontë. A de 1992 ficou no meio-termo: fiel ao tom, fiel à ambiguidade, e com um elenco que sustentou o peso do material.
Wuthering Heights e o problema da lealdade impossível
Um dos aspectos menos discutidos do romance de Brontë é a questão da lealdade como conflito central. Catherine é leal a Heathcliff de uma forma que o próprio texto sugere ser mais profunda do que qualquer lealdade conjugal ou social, e ainda assim escolhe a traição social a Heathcliff como forma de lealdade a si mesma e às expectativas do seu mundo. Essa contradição não é resolvida e não pode ser, e é por isso que a história continua gerando debate.
A versão de 1992 com Ralph Fiennes captura isso com uma honestidade que outras adaptações suavizam. Catherine de Juliette Binoche não é uma vítima de circunstâncias; é uma agente que faz escolhas e que paga um preço que ela antecipou. O filme está disponível para assistir em streaming gratuito, acessível sem assinatura adicional, e é o ponto de partida mais honesto para quem quer entender o romance sem ler o original.
Para quem ainda não viu nenhuma versão, o streaming gratuito disponível no catálogo é a porta de entrada mais acessível para um dos romances mais complexos e mais reinterpretados da literatura em língua inglesa.





















